Ceilândia: arte urbana, rap, break, socialização e atitude

Falar sobre Ceilândia – que completa 47 anos hoje – e não pensar na cultura hip-hop presente na cidade é praticamente impossível. Mesmo sob a forte influência da cultura nordestina, a região abraçou a música rap, o grafite, a dança break e a cultura do DJ, se tornando o berço de alguns dos artistas mais influentes do Distrito Federal e do Brasil. Quem é apreciador do gênero provavelmente já ouviu o nome da cidade em alguma música.

O rapper DJ Jamaika, 50, é um dos principais nomes do rap local. Há mais de 30 anos na cena, Jamaika é um dos muitos a conseguir levar o nome de Ceilândia para fora. “A cidade foi muito pisoteada nos anos 1980. A mídia vendia uma imagem perigosa daqui . Todo mundo tinha medo de vir para cá. O hip-hop entrou nessa história e nos deu uma voz”, conta. Antes do gênero ganhar força, o rapper destaca que o forró e o repente ditavam o tom na cidade.

Jamaika ainda conta que as temáticas não eram totalmente sociais no começo do movimento hip hop. “O rap falava sobre coisas mais leves, tinha muita zoeira. Depois de um tempo, percebemos que todos estavam dando atenção para o gênero. Então decidimos falar sobre temas mais importantes e sérios, além de levar o nome de Ceilândia nas músicas”, relembra o rapper.

A realidade das ruas, a violência policial e a desigualdade social eram citados constantemente nas músicas dos artistas de Ceilândia. Isso fez com que este tipo de rap se consolidasse como uma espécie de guia para os jovens. “Hoje o moleque não ouve mais os pais, nem os professores, mas o rap, sim, ele escuta. Por isso, a preocupação com a conscientização tem que ser tão grande”, ressalta DJ Jamaika.

Mesmo com as evoluções tecnológicas e consolidação do rap no mercado da música, a missão ainda é a mesma, na opinião do músico.

“O rap está sendo mal utilizado ultimamente. Nesta era em que vivemos, da ostentação, os jovens são expostos a uma série de coisas que eles não têm e ninguém diz como eles vão conseguir isso. Ninguém diz que eles precisam trabalhar e estudar”, opina.

Mãozinha a jovens talentos

Nascido em 2017, o projeto Jovens de Expressão oferece informação e cultura para ceilandenses de 18 a 29 anos. O espaço, localizado na Praça da Cidadania, realiza oficinas de audiovisual, fotografia, teatro, DJ e dança. Uma biblioteca e uma lan-house estão disponíveis para toda a comunidade.

A coordenadora do projeto, Rayane Soares, conta que a principal preocupação é direcionar o jovem para uma trajetória profissional. “Eles [os alunos] levam o que aprendem aqui para a vida toda. Quem realmente gosta, e se esforça, consegue entrar no mercado de trabalho. Muitos dos adolescentes, principalmente os de classe menos favorecida, precisam apenas de um incentivo para descobrir qual caminho trilhar”, diz.

Todos os instrutores são ex-alunos, que se qualificaram e retornaram para ajudar a comunidade.

Os participantes também ajudam na organização do festival que leva o universo do hip-hop à Praça do Trabalhador. “A gente percebe que muito dos eventos culturais ficam centralizados, lá no Plano Piloto. Nossa intenção é ter um evento próprio: da comunidade para a comunidade”, completa Rayane.

Saiba mais

Conhecido como poeta do rap nacional, Genival Oliveira Gonçalves, mais conhecido como GOG, tem história e personalidade dentro da cena hip hop brasileira. Seu rap, sua arte, sempre tiveram a função de desconstruir, de denunciar, de polemizar de forma poética e de valorizar e conscientizar as populações periféricas.

Artista de Ceilândia, GOG lançou ao odo 11 discos, sendo o último Mumm – Ra High Tech, no ano passado.

Grupos como Viela 17, comandado por Japão, Álibi e Cirurgia Moral, entre muitos outros, ajudaram a reforçar a identidade da cidade.

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